Educação Ambiental
Por Vilmar Berna

A Mata Atlântica na Escola
A primeira lição que se aprende em ecologia é que nada existe isoladamente na natureza, tudo está interligado entre si. Se mexermos numa coisa, alteramos outra. Com o ensino para o meio ambiente ocorre o mesmo. Devemos evitar a compartimentalização que concentra os estudos ambientais em Ciências ou Geografia, por exemplo, mas realizarmos um tipo de mutirão pedagógico, onde todas as matérias participem de forma multidisciplinar, envolvendo ainda Matemática, Língua Portuguesa, Estudos Sociais, Educação Física e Artística, etc. E para evitar que cada disciplina enfoque um tema diferente da questão ambiental, prejudicando a sincronização do aprendizado, é preciso que este mutirão pedagógico seja ainda interdisciplinar, com todas as matérias concentrando-se, ao mesmo tempo, e atendidas suas particularidades, em um assunto de cada vez. Propomos a Mata Atlântica como tema norteador, que pode ser seguido por outros ecossistemas como manguezal, restinga, floresta amazônica, cerrado, etc, dependendo da realidade vivida pelos alunos.

Língua Portuguesa
A criatividade numa redação depende muito dos alunos estarem realmente estimulados e sensíveis ao tema e nada é mais estimulante para as crianças que debater um assunto que esteja na ordem do dia, que tenha sido veiculado pela televisão principalmente.

Aproveite as notícias sobre a Mata Atlântica que a televisão mostra, ou provoque a discussão levando para sala de aula um artigo de jornal ou revista sobre uma agressão ou defesa da Mata Atlântica. Em seguida, crie um clima favorável em sala de aula para troca de idéias ou experiências entre os alunos sobre o tema proposto, motivando-os para encontrarem as soluções ou novos caminhos. Use e abuse das informações acumuladas que seus alunos já trazem de casa. Divida a classe em três grupos, por exemplo, e peça a cada um deles um relato diferente do fato, de acordo com a notícia transmitida pela televisão, ou estimulada por você com o recorte. Além de sintonizar os alunos com os problemas ambientais do mundo em que vivem, permite ainda explorar os vários modos de se ver um fato.

Outra experiência interessante é selecionar um texto sobre a Mata Atlântica, de preferência o que os alunos estiverem trabalhando com o professor de outra disciplina, pedindo que identifiquem adjetivos, substantivos, sujeitos e predicados, acentuação, etc. Também é importante trabalhar com eles termos ou conceitos que não ficaram muito claros, estimulando a consulta a dicionários e enciclopédias.

Ciências
Biologia do ser humano, ecologia, matéria e energia são temas das aulas de Ciências que podem se tornar muito interessantes se o professor tiver o cuidado de relacionar o que pretende ensinar com o interesse dos seus alunos. Esse interesse tanto pode ser espontâneo, quanto o professor deve estar preparado e ter a presença de espírito para aproveitar o momento.

Imagine sua turma percorrendo as trilhas da Mata Atlântica num passeio ecológico promovido pela escola, recolhendo todo tipo de material que julgar curioso ou importante para compor o Cantinho da Natureza, tais como sementes, folhas, frutos e flores, galhos interessantes, pequenos animais mortos, pedras e tipos diferentes de solo, além de anotarem os sons da floresta, a ocorrência de pegadas, as alterações promovidas pela influência humana, etc. Essa poderia ser uma aula de Ciências inesquecível para seus alunos, além de torná-los mais interessados na defesa da natureza. Na volta à sala de aula, as crianças manuseiam e selecionam o que coletarem, recebendo suas informações conforme o que o conteúdo do plano de aula exigir. Os alunos aprenderão a tirar suas próprias conclusões e questionarão melhor as informações que receberem do professor, pois estarão ligados à realidade que os cerca.

A preparação para o passeio pode começar numa conversa entre os alunos e pessoas mais velhas da comunidade, que conheceram a Mata Atlântica no passado. Essas pessoas devem ser convidadas pela Direção para falarem de suas experiências com os alunos. Isso pode possibilitar nos alunos o desenvolvimento do senso crítico, já que irão comparar o passado e o presente, a partir de suas próprias investigações, além de valorizar o saber de pessoas idosas. Também podem ser entrevistados poluidores e desmatadores, depredadores da Mata Atlântica, consumidores de lenha como padarias, etc. O professor deve elaborar um roteiro de entrevistas para os alunos não se atrapalharem com as perguntas nem se dispersarem. No início a tendência é os alunos ficarem presos às perguntas pré-elaboradas, mas conforme forem se desinibindo, farão suas próprias perguntas. Tudo precisa ser devidamente anotado ou desenhado, para ser usado depois em sala de aula. Seu roteiro deve ser simples, como perguntas como: há quanto tempo você mora aqui? Houve alguma mudança na paisagem ou na natureza do lugar? Para melhor ou para pior? Por quê? O que você acha que deveria ser feito para que a natureza na comunidade e vizinhança fosse preservada? E o que você está fazendo para isso? Por que o bairro tem esse nome? Você sabe quando começou a história do bairro? Você acha bom morar aqui? Quantas árvores você já plantou? Você sabe o que é Mata Atlântica? etc.

Geografia
Papel e caneta, gravador, máquina fotográfica e até uma filmadora se for possível! Munidos desse equipamento e de muita disposição, seus alunos podem aprender Geografia junto da natureza. O passeio pode ser no horário de aula mesmo, se for perto da escola, ou num final de semana, se for mais longe, quando se pode contar até mesmo com a presença dos pais, favorecendo o entrosamento escola/comunidade. O local pode ser o rio mais próximo, de preferência algum que nasça na Mata Atlântica, para tornar mais fácil a relação entre a natureza e o meio ambiente urbano. O importante é deixar aflorar a curiosidade da criança, sem o professor assumir a posição de 'sabe-tudo', deixando fluir também sua curiosidade, anotando as perguntas e questões dos alunos, para encontrar as respostas depois, junto com eles.

A visão crítica da realidade que seus alunos adquirirão, contribuirá para que se tornem agentes de transformação em suas comunidades, colaborando não só na defesa da natureza, como na melhoria da qualidade de vida do local. Esse encaminhamento para a ação transformadora é uma tendência natural da área de estudos sociais, por isso, não estranhe se as crianças, ao encontrarem as trilhas da Mata Atlântica cheias de lixo, começarem a limpá-las; ou motivarem-se a replantar encostas ou praças abandonadas; ou assumirem a defesa de algum aspecto ambiental em sua comunidade. A partir de vivências como estas, o conhecimento de seus alunos se ampliará ainda mais, contribuindo para suas formações enquanto cidadãos e sujeitos de sua própria história.

História
O professor pode contar com inúmeros recortes de jornais e revistas, publicados quase diariamente, trazendo notícias sobre problemas ambientais e que, levados para a sala de aula, podem ser utilizados para mostrar que a História é uma coisa viva, ela está acontecendo diante de nossos olhos, e nós estamos participando dela, pela ação ou omissão. É importante desmistificar a idéia que a História diz respeito apenas a um passado pronto e mumificado nos livros, mas que é uma coisa presente, acontecendo neste instante.

Você deve ajudar seus alunos a aprenderem a ler e decodificar as notícias de jornais, que geralmente são fragmentos de fatos maiores, ajudando-os, ainda, a compreender o que está por trás das notícias, os conflitos de interesse, os diversos caminhos que existem e que os alunos também podem ajudar a participar dessa escolha. É aconselhável convidar, sempre que possível, pessoas de fora, como ecologistas, poluidores, lenhadores, caçadores, pessoas idosas ou que foram contemporâneas ou participantes dos fatos, para dar suas versões, dizer o que aconteceu, como, quando, onde e principalmente, por quê. A leitura reflexiva dos jornais e revistas deve ser acompanhada por consultas a dicionários e enciclopédias para decifrar termos mais difíceis. Após esse trabalho, a avaliação com os alunos pode ser feita dividindo a classe em três grupos. Cada grupo elabora um relatório com a sua versão sobre tudo o que aconteceu e ouviu em sala de aula. Depois os grupos trocam os relatórios entre si. Eles descobrirão que História é feita mais em cima de versões que de fatos, e por isso é necessário ter senso crítico para estudá-la.

 

O trabalho em grupo tem a vantagem ainda de favorecer a troca de informações e experiências sobre os problemas ambientais da comunidade, estimulando a participação dos alunos na busca de soluções reais para os problemas, quando poderão fazer a História que futuros alunos irão estudar depois em sala de aula.

Educação Artística

A atividade artística pode ser um recurso vivo para ampliar a linguagem oral e corporal dos alunos, despertando sensibilidades, a criatividade e talentos. Um exemplo disso é a dramatização, em que o uso de máscaras simples, executadas pelos próprios alunos com sacos de papel e outros materiais, fantasias com retalhos de panos, etc., reproduz as árvores e animais da Mata Atlântica em peças de teatro escritas também pelos alunos. Os temas são variados, tratando desde animais em extinção sendo caçados, árvores derrubadas por lenhadores, até animais organizando-se para enfrentar as agressões. As máscaras têm o efeito mágico de desinibir alunos tímidos.

A educação artística, além de estimular talentos e a sensibilidade das crianças, pode auxiliar outras disciplinas. O verbo, por exemplo, pode virar um palhaço e a interjeição uma bruxinha, que ensinam, através de diálogos engraçados, intrincadas regras de português. Da mesma forma, a história do Brasil deixa de ser assunto chato, que tem de ser decorado, e transforma-se numa gostosa peça de teatro, escrita e encenada pelos próprios alunos.

O importante é libertar a educação artística das quatro paredes da sala de aula e de atividades sem criatividade, isoladas de outras disciplinas como se fosse um mundo à parte. Sua principal tarefa é desenvolver sentidos latentes, normalmente ocultos por falta de estímulos externos.

Passeio na Mata Atlântica Como Estratégia de Educação Ambiental
Nada é mais educativo que um passeio à floresta. É explorando a Mata Atlântica ou os arredores da escola, saindo da sala de aula, que as crianças compreendem melhor as questões ambientais de seu mundo e se sensibilizam para aprender sobre ecossistema, ciclos naturais, interferências humanas no meio ambiente, para melhor ou pior, através da história e na atualidade. Sem precisar decorar ou passar horas diante de livros didáticos distantes de suas realidades, as crianças podem aprender de forma mais divertida, criativa e motivada, sobre o seu mundo e as possibilidades de interferir nele para melhorá-lo.

O passeio pode iniciar dentro da própria escola, ampliando o conhecimento dos alunos com relação ao espaço físico e ainda sobre as funções de cada um, diretores, professores, serventes, através de entrevistas. O próximo passeio pode ser no quarteirão em volta da escola, ou na pracinha mais próxima, tudo já fazendo parte de um treinamento para passeios mais longos, percorrendo, por exemplo, as margens do rio próximo que nasce na Mata Atlântica, verificando e anotando as poluições e agressões, aprendendo sobre a água e suas funções, sua importância na higiene humana, etc. É através dessas experiências que o aluno vai montando a sua história, a de sua família e a da comunidade, adquirindo a memória básica da cidadania.

Depois do passeio, de volta à sala de aula, os alunos elaboram um relatório de avaliação, com todas as observações e até desenhos que fizeram, que são importantes para ajudar na percepção do espaço e localização. Os passeios ecológicos e outras atividades interdisciplinares proporcionarão ótimos momentos para o ensino da Língua Portuguesa, desde a preparação de textos para dramatizações, até relatórios de visitas, entrevistas ou passeios que os alunos certamente realizarão, por isso é importante cada professor estar atento para as possibilidades que surgirão de tornar o ensino agradável e motivador para seus alunos.

Os passeios ecológicos podem ser apropriados pelas diversas disciplinas: história, geografia, ciências, artes, educação física, português, matemática, etc, utilizando-os para tornar mais estimulantes e criativas as aulas de cada matéria. Os alunos podem fazer, por exemplo, pelo menos um passeio a cada bimestre, num tipo de mutirão pedagógico, onde os professores de cada disciplina planejem paradas didáticas de observação, que servirão de base para desenvolvimento posterior, em sala de aula, dos temas do currículo.

O que é preciso?
1 - Escolher o local com os alunos, tendo em mente os objetivos a serem atingidos;
2 - Articular-se com o corpo pedagógico e a direção da escola, não só para estimular a realização de um mutirão pedagógico, aproveitando ao máximo do passeio, como conseguir a autorização da escola.
3 - Solicitar a autorização - e a participação - dos pais.
4 - Preparar relação de material em função do tempo e local do passeio. Para os alunos: roupas confortáveis (roupa de banho por baixo, se houver rio ou cachoeira no caminho; calça comprida e camiseta de manga comprida, de preferência, para evitar arranhões); tênis e meias confortáveis; boné ou chapéu; pequena mochila com lanche frio (suco ou leite em caixinha, sanduíches, ovo cozido e sal, biscoito e frutas); água para beber; material para registros (caneta, caderno para escrever e desenhar, lápis e borracha, gravador, máquina de fotografia, etc.); sacos plásticos para recolher o lixo e coletar materiais para o Cantinho da Natureza. Para o professor: os mesmos itens dos alunos e mais, papel higiênico para todos; material e manual de primeiros socorros (água oxigenada, mercúrio, band-aid, algodão, esparadrapo, gaze, amônia - para picadas de insetos, protetor contra queimaduras do sol, repelente, anti-alérgicos, analgésicos, pomadas anestésicas, álcool, tesoura, pinça, faca ou canivete, etc.), e fósforo, etc.

Como Planejar o Passeio?
1 - A partir dos objetivos a serem atingidos, estabelecer um roteiro com paradas estratégicas em pontos que favoreçam observações didáticas. Por isso, é aconselhável que o professor percorra antes o local do passeio, sem os alunos, fazendo um mapeamento das trilhas e a localização dos pontos de parada, em companhia de um ecologista ou pessoa que conheça o lugar.
2 - Planeje os horários. Se o passeio durar o dia todo, é bom começar bem cedo, 7 horas por exemplo, retornando às 15 horas, evitando ataque de mosquitos. É bom lembrar que na mata escurece mais cedo. Procure voltar antes disso.
3 - Se for passear em parque ou alguma área protegida, lembre-se de antes conseguir a autorização.
4 - O transporte até o local não deve constituir problema. O melhor mesmo é cada aluno trazer de casa o dinheiro da passagem e todos tomarem ônibus de linha até o mais próximo do local, caminhando o restante do trajeto. O cuidado que se deve tomar é evitar as horas do rush, quando os ônibus estão cheios. Pode haver ainda necessidade de atravessar ruas movimentadas ou esperar em filas. É uma boa oportunidade para você preparar seus alunos, previamente, sobre a maneira de se portar civilizadamente nos centros urbanos e sobre noções de trânsito. Se não houver ônibus de linha para o local, o jeito é conseguir o auxílio dos pais, fazendo o transporte em carros individuais, se houver. Ou então enviar ofícios às empresas de ônibus e ao Departamento de Transportes concedidos da Prefeitura de sua cidade, solicitando o empréstimo de um ônibus. Em última hipótese, é todos se cotizarem para alugar um.

A Preparação do passeio
1 - A preparação do passeio já dará motivos suficientes para sensibilizar as crianças sobre temas do currículo, basta estar atento para as oportunidades que irão surgir. É importante preparar os alunos para o que você pretende que observem durante o passeio, em função de seu roteiro e objetivos. Lembre-se de que, apesar de ser ao ar livre, o passeio constitui-se numa aula privilegiada, onde você conta com o interesse e a motivação dos alunos para o conteúdo a ser ensinado.
2 - Preparar as crianças para se comportarem no trânsito e nos lugares de aglomeração. Falar sobre os cuidados que se deve tomar na mata, para não se perder ou machucar, devendo todos andarem sempre juntos, lembrando que se trata de um passeio para observação, e não de uma competição para ver quem chega primeiro. O ritmo da caminhada é marcado pelo que anda mais devagar, pois não adianta todos correrem à frente e depois terem de voltar para buscar os retardatários. O primeiro da fila e o último, devem estar sincronizados, trocando informações entre si para garantir o ritmo e o sucesso do passeio.