24/08/2003 O vazamento de entre quatro e cinco mil litros de betume no rio Itabapoana, em 8 de agosto, não pode ser comparado ao vazamento de 1,4 bilhão de litros de lixívia negra nos rios Pomba e Paraíba do Sul. Por trás desta segunda catástrofe, estão uma fábrica que busca o lucro a qualquer custo — a Cataguases de Papel — com a complacência da prefeitura de Cataguases, do órgão governamental de meio ambiente de Minas Gerais, da presidência do Ibama e de sua representação estadual e da Agência Nacional de Águas. Por trás do acidente no rio Itabapoana, estão o governo do Estado do Rio de Janeiro, o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem, a prefeitura de Bom Jesus do Itabapoana e uma firma de pavimentação, mesmo com a hipótese de tentativa de furto do betume. Deve-se considerar também o tipo e o volume do material vazado. Se algum elo liga os dois acidentes, ele é, sem dúvida, a concepção ocidental que entende a natureza como mera entidade inanimada sem nenhuma importância intrínseca. Por este prisma, toda a sociedade, da cabeça aos pés, quer explorá-la em seu próprio benefício. A Petrobras se orgulha de bater recordes na extração de petróleo. Diante deste êxito aparente, os Estados e os municípios pleiteiam também o seu butim. E ele acaba por ser conquistado na forma de royalties. Sem fazer muito esforço, os estados e municípios espoliam indiretamente da natureza um montante extraordinário de recursos financeiros usados para feri-la, agora diretamente. Os minoritários movimentos que defendem o meio ambiente e a promoção da sociedade lutam pelo uso democrático desses recursos. Foi assim que nasceu o Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam), recebendo 20% dos royalties destinados ao Estado do Rio de Janeiro para proteção do meio ambiente. Porém, querendo levar adiante um desenvolvimentismo agressivo, o governador Anthony Garotinho apresentou uma emenda à Constituição do Estado propondo a abertura dos recursos do Fecam para empreendimentos destruidores da natureza. A emenda foi aprovada. Agora, sua mulher e sucessora, Rosinha Garotinho, envia uma emenda imoral retirando 75% do Fecam para soerguer o Estado e retomar o crescimento econômico. Devemos entender por retomada do “desenvolvimento”, entre outros itens, a pavimentação asfáltica de estradas, seja asfaltando estradas de terra, seja recapeando as estradas já asfaltadas, seja abrindo novas estradas. Para tanto, o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem não tem o mínimo escrúpulo com o meio ambiente. Pedra, argila e areia são retiradas de qualquer lugar para construção do subleito da rodovia. Os cursos d’água e as lagoas são aterrados ou seccionados, com ou sem sistemas de circulação hídrica sob a estrada. Quando há necessidade imperiosa de instalar tais sistemas, eles normalmente são subdimensionados. O gado merece passagens mais amplas por baixo das estradas que a água. Há também a derrubada da vegetação nativa para retificação do traçado ou para duplicação de pistas.
Mas, e o processo de licenciamento ambiental, a cargo do Ibama, em rodovias federais, e da Feema, no caso das estradas estaduais no Rio de Janeiro? Em princípio, ambos os órgãos adotam uma atitude de omissão, fazendo vista grossa. Se o protesto dos ecologistas ecoa, tanto o DER se apressa em solicitar licença prévia para obras já começadas, quanto a Feema se apressa em concedê-la, dispensando o empreendimento de Estudos de Impacto Ambiental. Com apenas esta licença (LP), o DER leva a obra até o fim, criando um fato consumado. Ao perceberem a falta de escrúpulos do DER-RJ e o conluio da Feema, os ecologistas recorrem ao Ministério Público. Mas algo estranho acontece nesta instituição, quer na esfera federal, quer na esfera estadual: Procuradores da República, Promotores de Justiça e o corpo técnico de apoio entendem que estradas não causam problemas ao meio ambiente. Até hoje, nenhum empreendimento rodoviário levou o Ministério Público a acionar o Poder Judiciário ou a exigir reparação de danos ou compensações pelas obras em termos de ajustamento de conduta. Todas as obras que chegaram ao nosso conhecimento, no norte-noroeste fluminense e até na região serrana e no sul do Espírito Santo, foram questionadas no Ministério Público por meio de representações. Os inquéritos inaugurados por elas caminham a passo de tartaruga, sem contar os que foram arquivados por proposta da equipe técnica da Promotoria de Direitos Difusos. O descaso, o desinteresse e a irresponsabilidade do poder
executivo e do Ministério Público estão por trás
do acidente de Calheiros, onde passa um dos maiores absurdos em termos
de estrada: a RJ-230. |