01/04/2003 A diretoria do Ministério da Agricultura no Rio de Janeiro reúne-se nesta segunda-feira à tarde para planejar ações de socorro aos agricultores e pecuaristas da região atingida pelo acidente ambiental que deixou cinco cidades sem água e matou peixes e animais que consomem a água do rio Pomba. As cidades afetadas produzem frutas, tomates e hortaliças. A equipe, liderada pelo chefe da Divisão de Desenvolvimento Rural, Celso Merola Junger, vai fazer um levantamento sobre a água utilizada pelos agricultores e pecuaristas para consumo, irrigação e cuidados com os animais para que carros-pipas sejam enviados para a região. Merola confirmou que uma lagoa de contenção de rejeitos químicos da Indústria de Papel e Celulose de Cataguases, em Minas Gerais, perto da divisa com o Rio de Janeiro, se rompeu e lançou mais de 20 milhões de litros de produtos como soda cáustica e chumbo no rio Pomba, que corta o norte e o noroeste fluminense. Estão em estado de calamidade pública as cidades de Miracema, Aperibé, Portela, Santo Antônio de Pádua, Portela e Cambuci. Santo Antônio de Pádua é a mais afetada. Merola disse que o problema pode afetar o abastecimento de água em Campos, São Fidelis e outros municípios, já que o rio Pomba deságua no rio Paraíba do Sul. É uma Tragédia ambiental Vazamento de produtos tóxicos em Minas contamina rio fluminense, mata peixes e vegetação, deixa 4 cidades sem água e ameaça outras 3 O vazamento de um reservatório de produtos tóxicos da Fábrica Cataguases de Papel, em Cataguases (MG), causou uma poluição sem precedentes no Rio Pomba, num trecho de 100 quilômetros até a foz, no Rio Paraíba do Sul, na localidade de Portela, em Itaocara. O acidente ecológico deixou sem água 78 mil moradores de quatro cidades e um distrito do Noroeste Fluminense e ameaça outras três da Região Norte, caso a contaminação atinja o Paraíba do Sul. Foi despejado 1,2 milhão de metros cúbicos
de produtos tóxicos – enxofre, soda cáustica, liquinina,
sulfeto de sódio, hipoclorito de cálcio e antraquinona –
que ficavam armazenados num tanque de 450 metros de comprimento, 200 metros
de largura e 18 metros de profundidade. O reservatório fica no
sítio Boa Vista do Cágado, na Fazenda Bom Destino, de um
dos sócios da empresa. O produto é usado para branquear
papel. Água ficou escura e com muita espuma O prefeito de Pádua, Luiz Fernando Nando Padilha, se reuniu com o vice-governador e secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, o secretário de Segurança Pública, Josias Quintal, e a presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), Isaura Fraga. A primeira análise indicou toxidade maior do que o esperado. O resultado definitivo sairá em 48 horas. Paraíba do Sul pode ser afetado A vigilância é essencial para definir a manutenção ou não do abastecimento em São Fidélis, Campos e São João da Barra, cidades banhadas e abastecidas pelo Rio Paraíba do Sul, que recebe em Itaocara as águas do Pomba. Responsáveis pelo abastecimento nessas cidades, a Cedae e a empresa Águas do Paraíba não acreditam que os produtos tóxicos comprometam o abastecimento. A opinião é compartilhada pelo secretário de Meio Ambiente de Campos, Zacarias Albuquerque: “Nossa expectativa é que o rio tenha poder de autodepuração dos produtos. Não vemos risco de desabastecimento”. (Colaborou Taís Gaspar) Moradores recorrem a minas e poços Pegos de surpresa, moradores de Santo Antônio de Pádua enfrentaram vários problemas em busca de água. Bastou um carro-pipa da Defesa Civil estacionar em frente ao Colégio Estadual Almirante Barão de Tefé, no Centro, para vários moradores aparecerem com baldes e garrafas plásticas. Maria Auxiliadora Camargo, 38 anos, disse que está usando água da piscina de uma vizinha nos serviços domésticos. “Mas não dá para cozinhar. Lá em casa, o almoço está sendo na base do miojo, que é instatâneo e gasta menos água”, comentou. Em outro bairro, Divinéia, próximo do Parque de Exposições, um grupo de mulheres e crianças carregava em bicicletas garrafões com água conseguida no poço da casa de uma vizinha. A prefeitura de Pádua decretou ponto facultativo e as escolas não funcionaram. Governo de Minas interdita empresa Perigo O sulfeto de sódio é um ácido que produz forte odor, semelhante ao de ovo podre, e pode liberar gás, que, em lugar fechado, mata. Depedendo da quantidade, os produtos podem contaminar áreas ribeirinhas tornando-as inférteis por muitos anos. Vazamento envenena água de várias
cidades Água do Rio Pomba já não
serve nem para banho O secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado do Rio, Cristino Áureo, enviou circular aos escritórios da Emater pedindo que os produtores sejam orientados a não usar a água dos rios Pomba e Paraíba nem para irrigação nem para dar de beber ao gado. A população de Santo Antônio de Pádua foi orientada a não consumir peixes do Rio Pomba e evitar a água até para tomar banho: há risco de sofrerem irritação e queimaduras pelo corpo. O coordenador do Ibama no Rio, Carlos Augusto Abreu Mendes, prometeu enviar técnicos em controle de acidentes ambientais à cidade. Vazamento foi detectado na tarde de sexta-feira O chefe da Divisão de Desenvolvimento Rural do Ministério da Agricultura no Rio, Celso Merola Junger, disse que a situação é grave: — A lagoa de rejeitos é um passivo ambiental que tem que ser muito bem monitorado para evitar acidentes. É preciso que se faça uma checagem contínua. A presidência do Ibama em Brasília informou que compete ao secretário de Meio Ambiente de Minas, José Carlos de Carvalho, decidir as punições que serão impostas à Cataguazes Papéis. A empresa aguarda um laudo técnico para se pronunciar sobre o acidente. Segundo a Feema, a empresa já não fabrica polpa de celulose, mas apenas aparas, cujo processo de produção é menos danoso ao meio ambiente. A Secretaria de Meio Ambiente de Minas informou, em nota, que a empresa está em situação irregular por descumprir exigências do Conselho de Política Ambiental (Copam). A empresa foi autuada em 1995 por causar poluição e funcionar sem licença de operação. Até hoje a Cataguazes não conseguiu providenciar novo licenciamento e será multada em até R$ 74 mil. De acordo com o presidente da Feam, Ilmar Bastos, o órgão está encaminhando uma queixa criminal ao Ministério Público. A Feam exigirá que a empresa investigue a possibilidade de contaminação de lençóis freáticos. Bastos está a caminho do Rio, onde se encontra com a presidente da Feema, Isaura Fraga, e com o secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, para discutirem as ações a serem tomadas. Em Angra, a governadora Rosinha Matheus disse que está acompanhando o desastre ecológico de perto. — O desastre é de extrema gravidade. A preocupação no momento é minimizar os dados para logo depois apurarmos responsabilidades — disse a governadora, que pediu ajuda à Petrobras para fazer barreiras de contenção. Segundo o presidente do Conselho de Meio Ambiente (Condema) de Belo Horizonte, Galba Rodrigues Ferraz, é difícil prever quanto tempo será necessário para que os rejeitos sejam eliminados completamente do solo e dos rios. A indústria da celulose no papel de vilã
ambiental — É uma indústria que oferece grande potencial nocivo ao meio ambiente. As empresas têm que se empenhar para evoluir para buscar modos mais limpos de produção — diz ele. Não à toa, ele conta, que os países do Primeiro Mundo há décadas transferiram suas indústrias de transformação para o Terceiro Mundo. Livraram-se dos poluentes e de um setor pouco lucrativo. O Brasil foi um dos destinos procurados pela indústria da celulose. — Naquela época, os nossos governantes orgulhavam-se do discurso “venha poluir o meu estado que eu forneço subsídios”. Uma indústria européia montou uma base que poluiu durante décadas o Rio Grande do Sul, em Guaíba. Mais tarde, acabou virando modelo de indústria comprometida com o meio ambiente, graças ao esforço do ambientalista José Lutzemberg — relembrou. Enviado por Prof. Julio Cesar - Coordenador do
Clube da Árvore
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