02/07/2003
Cataguazes de Papel: omissão inaceitável das autoridades mineiras

É inquestionável a gravidade do acidente envolvendo a Cataguazes de Papel, ocorrido em março último. Foi uma tragédia que trouxe danos ao meio ambiente, afetando principalmente a fauna aquática e as pessoas que dela vivem, ainda que 90% dos efluentes que vazaram da represa sejam compostos de matéria orgânica.

Com a poeira, ou melhor, a lama assentada, verifica-se que o rompimento da barragem, construída no final da década de 80 pela antiga controladora da indústria, acabou trazendo a tona algumas questões importantes. Uma delas é o súbito interesse do governo fluminense em amenizar os gravíssimos problemas vividos por seus cidadãos, como segurança pública, escândalos financeiros, envolvimento de autoridades com traficantes, entre outras mazelas, com a desgraça dos outros. A governadora Rosinha Garotinho agiu com tal veemência neste episódio que talvez solucionasse seus próprios transtornos usando metade desta energia.

Posando de paladina da ecologia, defensora do meio ambiente, em nenhum momento a senhora Anthony Garotinho se manifestou sobre a poluição da Baia de Guanabara, onde já foram gastos R$ 1,5 bilhão sem benefício algum para o ecossistema de um dos mais belos cenários do planeta. E o que dizer do despejo anual de 100 toneladas de materiais pesados como zinco, cádmio e chumbo na Baía de Sepetiba? E as lamentáveis e freqüentes mortandades de peixes na bela Lagoa Rodrigo de Freitas? E Campos, como trata o vinhoto de suas usinas de açúcar?

Em contrapartida, se autoridades fluminenses fizeram alarde, seus colegas de Minas Gerais preferiram seguir o caminho da omissão. O projeto do reservatório recebeu a aprovação da Feam – Fundação Estadual do Meio Ambiente – e do Ibama, mas, mesmo alertadas sobre a possibilidade do rompimento da barragem, só entraram em cena quando o fato estava consumado. Com sua omissão, estes órgãos ambientais forneceram munição para que os “garotinhos” pressionassem a Justiça Federal de Campos, prejudicando Minas ao defender o fechamento da indústria, gerando desemprego e perdas de receita.

A Cataguazes de Papel há muito não utilizava a lagoa, pois fabrica atualmente embalagens de papelão. Esta produção é realizada através da reciclagem de caixas de papelão usadas, não jogando poluentes em águas fluviais. Aí cabe um parêntesis. A Cataguazes de Papel ajuda a minimizar a situação de subemprego de uma considerável massa de brasileiros: os catadores de papel, pessoas que, via de regra, vivem à margem da sociedade.

Causa espanto, por isto, a omissão da Fiemg – Federação das Indústrias de Minas Gerais – que em nenhum momento preocupou-se com o possível fechamento de uma indústria que gera 270 empregos diretos. Uma empresa que só está em funcionamento pela determinação de seus empregados que, quando a Matarazzo encerrou suas atividades no Estado, impetraram ação na Justiça do Trabalho. Posterior decisão judicial transferiu o direito sobre todos bens imóveis da empresa paulista em Cataguases para os funcionários, que posteriormente negociaram a venda para a empresa que é a atual Cataguazes de Papel. Se a defesa pela permanência da empresa foi de extrema importância para a cidade, parece que a defesa da continuidade de seu funcionamento não é para a Fiemg. Se o município perde empregos e receita, pior para Minas.

Não menos espantosa é a atuação do governo Aécio Neves, campeoníssimo de votos na Zona da Mata. Além de ter sido ofuscado pelos holofotes da mídia e do esbravejamento da governadora fluminense, visitou a cidade e região apenas uma vez e, em nenhum momento ergueu a voz em defesa dos interesses mineiros, isto quando já comprovado que os danos ambientais não tinham sido tão intensos. Outro integrante do governo mineiro, o “secretário-ministro” José Carlos Carvalho, acompanhou a situação, acomodado em seu gabinete enquanto o vice-governador do Rio, Luiz Paulo Conde, fazia de Cataguases um quintal para suas grosserias e acusações aos mineiros. Ao transformar Cataguases em sinônimo de poluição, as autoridades do estado vizinho varrem seu lixo para debaixo de nosso tapete.

Nesta tragicomédia de erros e omissões, não é de se estranhar que a AMDA – Associação Mineira de Defesa Ambiental – encabece sua “lista suja” com a Cataguazes de Papel, uma empresa que recebeu como herança de uma indústria paulista um reservatório de resíduos químicos decorrentes da produção de celulose, com o conhecimento dos órgãos ambientais do Estado. A AMDA termina por fazer o jogo do governo fluminense em vez de propor medidas educativas para o meio ambiente, que deveria ser, afinal, a sua função. Enquanto Minas lava as mãos, o Rio de Janeiro posa de bonzinho e o município de Cataguases continua desempenhando o papel de vilão.

Definitivamente, Cataguases não merece isto. No dia 25 de julho, a cidade foi novamente invadida pelos “garotinhos” de Campos, que ocuparam a cidade sem pedir licença. Cataguases, berço do cinema nacional, do movimento verde, do modernismo, de grande tradição industrial, não merece isto. Se as autoridades mineiras abandonam Minas, quem há de socorrê-la? Seus filhos. Acorda Cataguases!
Galba Rodrigues Ferraz, Presidente do Condema (Conselho de Desenvolvimento do Meio Ambiente) – Cataguases
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