07/04/2003 Em idioma tupi, paraíba significa ''rio imprestável''. Foi justamente no que o Paraíba do Sul se tornou - ainda não se sabe por quanto tempo - depois de receber 1,2 bilhão de litros de água contaminada que vazou de uma lagoa de rejeitos industriais encravada num vale de Cataguases, em Minas Gerais. O rompimento da barragem abandonada é um retrato da negligência que ainda prevalece nas questões ambientais do país.
Negligentes foram as autoridades federais e de Minas Gerais, que permitiram a existência da lagoa por tantos anos e se descuidaram dos riscos de um acidente desta proporção. Enquanto o conteúdo tóxico do reservatório rompido descia o Ribeirão do Cágado, o Rio Pomba e o Paraíba do Sul - gerando prejuízos ecológicos, sociais e econômicos nas cidades ao longo de seus leitos -, o governador de Minas aproveitava o fim de semana entre goles de Romanée-Conti em Angra dos Reis, a governadora do Rio era informada do fato pelo prefeito de uma das cidades fluminenses atingidas e o Ibama (federal) e a Feam (de Minas Gerais) juravam ter trocado ofícios anteriores ao acidente apontando o risco. Ora, se risco havia, era preciso mais que despachos de papel! A legislação ambiental brasileira, a partir da resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente de 23 de janeiro de 1986, é uma das melhores do mundo. O Estudo de Impactos Ambientais (EIA) e os Relatórios de Impactos Ambientais (Rima) são peças legais exemplares. Mas só servem ao propósito para o qual foram criadas se postas em uso em todas as frentes. Desde os grandes projetos até pequenas indústrias, como a Cataguazes. Para citar exemplo semelhante: alguém sabe quantas cápsulas de césio 137 existem no país? E, delas, quantas não oferecem riscos à população, como ocorreu em Goiânia, em 1987? Anunciar multas de R$ 50 milhões, que jamais serão pagas, pedidos de prisão de um diretor administrativo ou abertura de CPIs mais parece exploração oportunista do episódio. O que se exige, já, é que o mapeamento de riscos ambientais seja tarefa de rotina. Que se eliminem - e não apenas se reformem - a barragem que se rompeu e a outra que ameaça se romper. Que seja aparelhado o sistema de fiscalização em Minas e em todo o país. E que cada um de nós se dê conta do crime que podemos estar cometendo ao ser negligentes com o lixo que produzimos.
|